Revista TscTscTsc

Algumas Obsessões
Fabricio


A Paixão de Ana, de Ingmar Bergman

Qualquer fã de Bergman que se preze fica muito feliz quando, ao começar a assistir um filme do grande diretor sueco, lê no início dos créditos as palavras mágicas: Max von Sidow - Liv Ullman - Bibi Andersson. Só o nome dos três atores já dá um arrepio na espinha. Realmente, A paixão de Ana é um filme digno de Bergman - embora nem de longe esteja entre o que de melhor ele fez.

O filme se passa numa ilha - e esta é uma das muitas semelhanças deste com outro filme do diretor sueco, Vergonha (*). Em Paixão de Ana, Max von Sidow é Andreas, um sujeito tenso e  fracassado que tem arroubos violentos e que já teve problemas com a justiça. Segundo o próprio von Sidow - os principais atores do filme dão seus depoimentos durante a projeção - Andreas é uma pessoa que simplesmente quer ser esquecida, quer se mostrar sem expressão. Liv Ullman é Ana, uma mulher que perdeu o marido e o filho num acidente de carro, e que tem uma personalidade complexa. Ela está sempre falando em ser verdadeira - mas a realidade é um pouco diferente disto. Também complexa é a personalidade de Eva (vivida com a maestria habitual de Bibi Andersson), uma mulher que se sente completamente perdida, sem um objetivo claro na existência, e que tenta de todas as maneiras chamar a atenção de Elis, vivido por Erland Josephson. Este é um arquiteto bem sucedido, frio e cínico, que tenta "captar a alma humana" com sua impressionante coleção de fotos de rostos.

O filme é sombrio, com as paranóias dos personagens aflorando o tempo todo - tudo pontilhado e potencializado por estranhos assassinatos de animais que vão ocorrendo na ilha. Além do comentado acima Andreas tem um caso com Eva e depois vai viver com Ana - o que se revela (mais um) erro; e, para pagar suas dívidas, ele também trabalha para Elis. Mas o principal mesmo em A Paixão de Ana é a maneira como a esperança - para todos - vai se esvaindo a cada minuto. A sensação é que não há nenhuma saída possível para nenhum dos personagens - a clássica cena final é uma maneira de mostrar isto: o locutor em off, que comenta o filme o tempo todo, diz que este "era Andreas Winkelman" enquanto o personagem anda sem sentido de um lado para outro.

É Bergman. Os atores principais, vale repetir, são Max von Sidow, Bibi Andersson e Liv Ullman (**). Vale a pena ver e rever A Paixão de Ana.

O que desagrada no filme, entretanto, é a comparação: mesmo obras profundamente torturadas como Gritos e Sussurros, O Sétimo Selo e Sonata de Outono Bergman sempre deixava uma porta aberta, uma saída, uma esperança - o que não acontece aqui.

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(*) Vergonha também é um filme sombrio, com o casal principaltambém vivido por Max von Sidow e Liv Ullman. Mas a maior semelhança entre os dois é uma seqüência de um "longo e coerente sonho" vivido por Liv Ullman em Paixão de Ana, com imagens em preto-e-branco que parecem ter sido tiradas diretamente de Vergonha (este, filmado todo em preto-e-branco).

(**) ah, e Erland Josephson também está extraordinário!

 

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